4 falácias antifeministas
Redação e imagens por Lu Prata
O feminismo enfrenta inúmeros ataques e críticas baseadas meramente em falácias que não apenas desinformam, mas também perpetuam a desigualdade e o preconceito. Hoje, o Estude vai refutar quatro delas.
1- Mulheres são privilegiadas.
Pra refutar essa, é preciso compreender o que, exatamente, que as pessoas chamam de "privilégio".
Quando usam esse termo, geralmente se referem a alguns direitos básicos, como o direito ao aborto ou leis contra a violência doméstica, física e sexual.
O que essas pessoas não entendem é que direito não é privilégio. Direito é algo básico necessário para garantir a sobrevivência e a segurança do grupo que contempla.
A rampa não é um "privilégio" das PCDs, é uma necessidade que uma pessoa sem deficiência provavelmente não tem. Os direitos citados acima são como essa rampa: coisas que vem pra nos dar equidade e garantir nossa vida.
Só no Brasil, uma menina ou mulher é estuprada a cada 10 minutos. 67% dos atendimentos em saúde de estupro foram de meninas entre 10 e 14 anos. Em 2021, registramos mais de 17 MIL crianças de até 14 anos grávidas. Sabemos que a maioria das vítimas jovens são violadas em casa. Exigir que elas tenham direito de continuar o curso de suas vidas normalmente, sem se preocupar em prolongar os efeitos dessa violência, é "privilégio"?
A cada 24 horas, aproximadamente 3 mulheres são vítimas de feminicídio. A cada 1 hora, 26 sofrem violência física. 36% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar de algum tipo. Tentar proteger essas vítimas e impedir que as agressões se intensifiquem, afastando-as de seus agressores, é "privilégio"?
2- O feminismo não tem mais nada a conquistar.
Infelizmente essa premissa também não é verdadeira. Se fosse verdade, não teríamos dados alarmantes sobre violência de gênero, casamento infantil, gestação forçada, mutilação genital e tantas outras coisas que já deveriam ter sido superadas.
Mesmo que aqui no Brasil a gente tenha direitos garantidos no papel, ainda enfrentamos muitos problemas na prática. Não queremos ser apenas cidadãs de papel; queremos ação concreta. E mesmo no papel nossos direitos estão constantemente ameaçados (como exemplificado pelo PL 1904/24).
Por isso, precisamos continuar a fazer barulho para garantir que não sejamos esquecidas.
Além disso, ainda lutamos por direitos que faltam, como o direito ao aborto e o aumento da licença maternidade e paternidade.
Em outros países, a situação é ainda mais grave.

No Afeganistão, por exemplo, as mulheres não têm permissão para estudar ou sair desacompanhadas.
No Paquistão, jovens ainda são assassinadas por "crimes de honra" (como se recusar a aceitar um casamento arranjado). Menos de 20% das jovens do interior chegaram ao estudo secunário.
No Quênia e em outras 29 localidades na África e no Oriente Médio, cerca de 200 milhões de meninas são submetidas a mutilação genital, um procedimento cruel que compromete a saúde física, mental e sexual sem justificativa.
Em países como Níger, Bangladesh, Chade e Mali, os índices de casamento infantil ultrapassam os 50%.
Esses dados provam que nossa luta continua sendo essencial e que ainda há muito trabalho ser feito.
3- Tudo o que temos foi cedido pelos homens.
Essa afirmação ignora um fato básico sobre a conquista dos direitos: nada vem sem pressão popular, ação coletiva e luta.
Dizer que os homens "cederam" direitos é que nem dizer que a liberdade dos povos escravizados foi um "presente" concedido pelos brancos.
Historicamente, as mulheres foram sistematicamente oprimidas e marginalizadas, sobretudo pelos homens no poder. Nossa opressão lhes dava poder, e ninguém que detém o poder quer abrir mão dele. Quando o faz, é por medo de cair, por pressão da comunidade nacional e internacional ou por necessidade advinda das transformações sociais.
Além disso, homens cis jamais teriam pensado em muitas necessidades nossas, como direitos reprodutivos e sexuais. Tais direitos foram pensados, conquistados e aplicados pelas mulheres.
4- O feminismo odeia homens.
Essa falácia se baseia em uma compreensão errada dos objetivos do feminismo.
O feminismo não odeia os homens, odeia o PATRIARCADO, que também os afeta negativamente.
Por conta dos papéis de gênero tão firmes e do patriarcalismo, homens são maioria dentre as vítimas de suicídio - uma vez que são incentivados a reprimir suas necessidades e dores, com aquela velha ideia de que "homem não chora"-, por exemplo.
Os mesmos papeis afastam pais de seus filhos, uma vez que as atividades de cuidado são atribuidas somente as mulheres. É por isso que a licença paternidade é de apenas 5 dias, algo incabível.
Além disso, os índices de estupro de vulnerável de meninos são ignorados por grande parte da população, principalmente por outros homens, porque grande parte da sociedade super estimula - de forma prejudicial - a sexualidade masculina desde a infância, normalizando relações sexuais precoces.
Compreendendo isso, as feministas buscam construir uma sociedade que seja justa e saudável também para os homens.
Uma prova disso é o Projeto de Lei nº 1974/2021, da Deputada Sâmia Bomfim (PSOL/SP) e do Deputado Glauber Braga (PSOL/RJ), que visa aumentar a licença parental (que vale para mães, pais e semelhantes) remunerada para um período de 180 dias, permitindo que homens e mulheres passem tempo com seus filhos, criando vínculos e garantindo um bom desenvolvimento para o bebê.
