4 falácias antifeministas

07/08/2024

Redação e imagens por Lu Prata

O feminismo enfrenta inúmeros ataques e críticas baseadas meramente em falácias que não apenas desinformam, mas também perpetuam a desigualdade e o preconceito. Hoje, o Estude vai refutar quatro delas.

1- Mulheres são privilegiadas.

Pra refutar essa, é preciso compreender o que, exatamente, que as pessoas chamam de "privilégio".

Quando usam esse termo, geralmente se referem a alguns direitos básicos, como o direito ao aborto ou leis contra a violência doméstica, física e sexual. 

O que essas pessoas não entendem é que direito não é privilégio. Direito é algo básico necessário para garantir a sobrevivência e a segurança do grupo que contempla. 

A rampa não é um "privilégio" das PCDs, é uma necessidade que uma pessoa sem deficiência provavelmente não tem. Os direitos citados acima são como essa rampa: coisas que vem pra nos dar equidade e garantir nossa vida.

Só no Brasil, uma menina ou mulher é estuprada a cada 10 minutos. 67% dos atendimentos em saúde de estupro foram de meninas entre 10 e 14 anos. Em 2021, registramos mais de 17 MIL crianças de até 14 anos grávidas. Sabemos que a maioria das vítimas jovens são violadas em casa. Exigir que elas tenham direito de continuar o curso de suas vidas normalmente, sem se preocupar em prolongar os efeitos dessa violência, é "privilégio"? 

A cada 24 horas, aproximadamente 3 mulheres são vítimas de feminicídio. A cada 1 hora, 26 sofrem violência física. 36% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar de algum tipo. Tentar proteger essas vítimas e impedir que as agressões se intensifiquem, afastando-as de seus agressores, é "privilégio"? 

2- O feminismo não tem mais nada a conquistar.

Infelizmente essa premissa também não é verdadeira. Se fosse verdade, não teríamos dados alarmantes sobre violência de gênero, casamento infantil, gestação forçada, mutilação genital e tantas outras coisas que já deveriam ter sido superadas.

Mesmo que aqui no Brasil a gente tenha direitos garantidos no papel, ainda enfrentamos muitos problemas na prática. Não queremos ser apenas cidadãs de papel; queremos ação concreta. E mesmo no papel nossos direitos estão constantemente ameaçados (como exemplificado pelo PL 1904/24).

Por isso, precisamos continuar a fazer barulho para garantir que não sejamos esquecidas. 

Além disso, ainda lutamos por direitos que faltam, como o direito ao aborto e o aumento da licença maternidade e paternidade.

Em outros países, a situação é ainda mais grave. 

Malala Yousafzai, ativista paquistanesa baleada pelo Talibã por defender o direito das mulheres ao estudo.
Malala Yousafzai, ativista paquistanesa baleada pelo Talibã por defender o direito das mulheres ao estudo.

No Afeganistão, por exemplo, as mulheres não têm permissão para estudar ou sair desacompanhadas. 

No Paquistão, jovens ainda são assassinadas por "crimes de honra" (como se recusar a aceitar um casamento arranjado). Menos de 20% das jovens do interior chegaram ao estudo secunário.

No Quênia e em outras 29 localidades na África e no Oriente Médio, cerca de 200 milhões de meninas são submetidas a mutilação genital, um procedimento cruel que compromete a saúde física, mental e sexual sem justificativa.

Em países como Níger, Bangladesh, Chade e Mali, os índices de casamento infantil ultrapassam os 50%. 

Esses dados provam que nossa luta continua sendo essencial e que ainda há muito trabalho ser feito.

3- Tudo o que temos foi cedido pelos homens.

Essa afirmação ignora um fato básico sobre a conquista dos direitos: nada vem sem pressão popular, ação coletiva e luta. 

Dizer que os homens "cederam" direitos é que nem dizer que a liberdade dos povos escravizados foi um "presente" concedido pelos brancos. 

Historicamente, as mulheres foram sistematicamente oprimidas e marginalizadas, sobretudo pelos homens no poder. Nossa opressão lhes dava poder, e ninguém que detém o poder quer abrir mão dele. Quando o faz, é por medo de cair, por pressão da comunidade nacional e internacional ou por necessidade advinda das transformações sociais.

Além disso, homens cis jamais teriam pensado em muitas necessidades nossas, como direitos reprodutivos e sexuais. Tais direitos foram pensados, conquistados e aplicados pelas mulheres. 

4- O feminismo odeia homens.

Essa falácia se baseia em uma compreensão errada dos objetivos do feminismo. 

O feminismo não odeia os homens, odeia o PATRIARCADO, que também os afeta negativamente. 

Por conta dos papéis de gênero tão firmes e do patriarcalismo, homens são maioria dentre as vítimas de suicídio - uma vez que são incentivados a reprimir suas necessidades e dores, com aquela velha ideia de que "homem não chora"-, por exemplo. 

Os mesmos papeis afastam pais de seus filhos, uma vez que as atividades de cuidado são atribuidas somente as mulheres. É por isso que a licença paternidade é de apenas 5 dias, algo incabível.

Além disso, os índices de estupro de vulnerável de meninos são ignorados por grande parte da população, principalmente por outros homens, porque grande parte da sociedade super estimula - de forma prejudicial - a sexualidade masculina desde a infância, normalizando relações sexuais precoces.

Compreendendo isso, as feministas buscam construir uma sociedade que seja justa e saudável também para os homens. 

Uma prova disso é o Projeto de Lei nº 1974/2021, da Deputada Sâmia Bomfim (PSOL/SP) e do Deputado Glauber Braga (PSOL/RJ), que visa aumentar a licença parental (que vale para mães, pais e semelhantes) remunerada para um período de 180 dias, permitindo que homens e mulheres passem tempo com seus filhos, criando vínculos e garantindo um bom desenvolvimento para o bebê. 

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